CORREDEIRA


Metamorfoseando visualmente planta, corpo e tudo que existe, Luis Filipe explora na tela, nos objetos criados, no espaço e no encontro com o outro, sussurros daquilo que não se pode explicar. Sua pulsão de vida e os segredos do mundo o levam à criação, e a criação é algo absolutamente inexplicável, traz algo de sobrenatural e mágico. Assim como os mistérios ocultos no ovo do conto de Clarice Lispector, no qual a autora o descreve como metáfora de Deus, o início de tudo, daquilo que pode SER ou o que É em potência. E por assim ser, sua arte nasce do silêncio de uma meditação solitária, emergida de seus espaços mais íntimos, iluminando e explorando a floresta, a rocha, a cachoeira, as texturas e cores, numa constante construção de imagens narrativas e fantásticas.

Na corredeira de rio, na mata e nas encruzilhadas, Luis trilha caminhos de sua produção intrinsecamente conectada com memórias de sua infância em Venda Nova do Imigrante, no Espírito Santo. O roçado de sua vó; o tilintar do garfo na bacia; a dança dos corpos sobre as rochas da cachoeira do quintal de sua casa; a escuta do invisível e magicamente belo de tudo que nasce da terra. Sua matéria é essa, o micro e o macro dos inconscientes individual, coletivo e cósmico. O campo de sua criação abrange simbolismos ocultos das profundezas de seu imaginário que brinca, recorta e explora tudo que é segredo, tudo que pulsa vida, na incansável retomada para seu Ovo, seu mito fundante, sua potência de ser e de se tornar.  

Curadoria: Clarissa Ximenes